Artigo do jornalista Othelino Filho
Tomou vulto e passou a ecoar progressivamente, à medida em que as posturas se intensificavam, tornando-se cada vez mais sofisticadas e céleres, então sob a garantia de absoluta impunidade.
Logo o sentimento coletivo evoluiu para uma indignação consciente, com denúncias fundamentadas através de movimentos e redes sociais. Na agenda dos insubmissos, o inconformismo com a falta de ética na política, caracterizada, entre outras práticas lesivas, pelo mau uso do dinheiro público e enriquecimento ilícito, envolvendo parte significativa dos que são escolhidos para representar a sociedade, bem como em relação às pessoas nomeadas para ocupar cargos-chaves nos poderes constituídos.
A palavra de ordem passou a ser alternância de poder. Essa exigência por mudanças pontificou tão vigorosamente que assumiu o caráter de fenômeno social. Envolve as pessoas de bem, que acalentam o sonho de estudar, se qualificar, trabalhar e viver com dignidade, compostas por mulheres e homens; crianças, jovens e idosos de todas as etnias, credos e posições socioeconômicas.
Chegou-se à conclusão óbvia de que, muito mais do que antidemocrático e injusto, é puro exercício de uma dominação tirânica o fato de apenas um clã e seus seguidores mais próximos se locupletarem das riquezas do Estado. Realidade agravada com a exploração e opressão de trabalhadores humildes, da cidade e do campo. Gente de boa-fé, indefesa, que paga com sacrifício, suor, sangue e lágrimas a circunstância de ter nascido e viver sob o jugo de uma oligarquia egoísta, cruel, sequiosa de poder e fortuna. Chega de tragédia humana, de horror!
Demonstrando caráter dúbio e repugnante, alguns políticos tornaram-se renegados. Mudam de posição ao sabor das próprias conveniências. Pouco ou nada importam o interesse público e o bem comum. O deputado e secretário de Estado da Saúde, Ricardo Murad, expressa bem essa figura abominável.
Bastou que o grupo político de onde veio, rompeu furiosamente e para onde voltou rastejando (não se sabe até quando fica), caísse em queda livre, ele agride adversários para prestar serviços. O ex-governador José Reinaldo (candidato a deputado federal) e o deputado estadual Othelino Neto (candidato à reeleição), ambos com vibrante receptividade no eleitorado maranhense, têm sido alvo dos seus impropérios.
Embora pretendamos continuar debatendo ideias, apontando soluções para vencer o estado de penúria a que os maranhenses foram relegados pela oligarquia sarneyzista que hoje defende, vamos relembrar o nível de coerência do “trator”, reconhecendo-o indiferente às leis, antiético e politicamente volúvel e desastrado.
Ricardo Murad é irmão de Jorginho, marido e sócio de Roseana Sarney. É cunhado de Fernando Sarney. Ingressou na carreira política sob extrema empolgação com a performance do “maior estadista de todos os tempos”, José Sarney. Foi eleito deputado estadual e federal.
Preterido na aspiração de ser candidato a governador do Estado em 1994 (quando foi escolhida Roseana, a filha predileta de Sarney), rompeu com o grupo de origem e, dando uma guinada de 180 graus, tornou-se ferrenho opositor, acusando o seu ex-guru de chefiar a mais nefasta oligarquia brasileira. Por conta do parentesco próximo com a então governadora, foi impedido de se candidatar em duas eleições. Em 2002, foi candidato sub judice ao governo pelo PSB. Lançou a campanha em meados de fevereiro, anunciando as principais características de “um governo de oportunidades para todos”.
Na ocasião, realçou “uma proposta voltada para o enfrentamento dos graves problemas sociais, mas denunciando a corrupção e o atraso da oligarquia Sarney, no Maranhão”. Em breve pronunciamento, Ricardo Murad afirmou: “O Governo Roseana privilegia os interesses particulares”, acrescentando que “o Maranhão, um Estado potencialmente rico, tem atualmente o povo mais necessitado do Brasil. As fortunas existentes, com raras exceções, são de pessoas que ou passaram por cargos políticos, ou pertencem aos esquemas formados pelo grupo dirigente…”
Insistiu, enfaticamente: “O Maranhão não tem governo, os serviços públicos não funcionam”, denunciando que “o nível de produção atual do Maranhão é menor que o de 20 anos atrás e, nesse sentido, queremos assegurar a estrutura pública para garantir a produção e a comercialização dos produtos básicos, redirecionar o governo para o foco do anônimo, massificar o ensino e garantir a formação de mão de obra qualificada”. (JP, 16.2.2002). Com receio de ter a candidatura cassada e ser condenado a todos os ônus processuais, renunciou.
Durante quase dois anos, comandou a Gerência Metropolitana na Administração José Reinaldo (a quem reiteradamente exaltava como o melhor governador e extraordinário líder do movimento libertário do Estado). Em consequência de denúncias de gestão temerária, com inúmeras irregularidades, entre as quais autorização para execução de obras sem licitação, favorecimento e uso político do cargo (comprovados), foi demitido. Rompeu com José Reinaldo e, incontinenti, reintegrando-se ao seio oligárquico, foi nomeado coordenador da campanha caluniosa, injuriosa e difamatória tanto contra o governo do ex-amigo, correligionário e chefe, quanto em relação ao cidadão Zé Reinaldo e à família. (Prática criminosa repetida, agora, contra Flávio Dino, favorito disparado em todas as pesquisas. O prefeito Edivaldo Holanda é outra vítima).
Em 2004, candidatou-se a prefeito de São Luís, apoiado pelo clã Sarney, ao qual pertence por afinidade familiar. Patinou nos sete por cento dos votos, assumindo a lanterna entre os candidatos em condições de vencer as eleições. Depois de passar pelo PFL, PSD, PDT e PSB, hoje é filiado ao PMDB. Onde andam autoridade moral e coerência do trânsfuga? Certamente nos porões da obscuridade oligárquica enraizada…
(**) Este artigo é dedicado ao estadista Eduardo Campos, que honra para sempre a política e a Nação brasileiras, fiel ao perfil familiar, incluindo o seu avô Miguel Arraes.
0 comentários :
Postar um comentário