13 de abr de 2015

Por Luciana Lima - iG Brasília 

Para analistas políticos, mudança na articulação explicitou enfraquecimento da presidente, que pode se tornar refém da sigla aliada
A opção de Dilma Rousseff de entregar a articulação política ao PMDB explicitou a imagem enfraquecida da própria presidente e do PT no comando do país. Para especialistas, Dilma foi obrigada a “ceder os anéis para não perder os dedos” e, caso não consiga reagir, tende a passar o resto do mandato refém do maior partido aliado. 

A difícil situação de Dilma, segundo os estudiosos, é consequência da sequência de “erros políticos” cometidos pela presidente e pelo PT desde as eleições. Embora acreditem que a decisão foi acertada, eles entendem que ela pode, agora, não surtir efeitos desejados devido ao avanço do desgaste de Dilma e do governo. 

“A meu ver, entrar neste tipo de acordo com o PMDB é ceder os anéis para não perder os dedos. Acho que esta é a metáfora que a gente pode usar e que faz sentido neste momento”, aponta o cientista político Cláudio Gonçalves Couto, professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Eu acho que nunca vi um presidente em um período tão curto de tempo de seu mandato, considerando aí o segundo mandato, tão fraco”, observou Couto. 

“Na verdade, a gente vê cada vez menos um governo do PT e mais um governo da coalizão, sobretudo do PMDB dentro desta coalizão”, diz o professor. “Diante de um Executivo muito fraco que não consegue ter uma maioria sólida no Legislativo, o governo acaba nas mãos de quem controla a direção do Poder Legislativo. É isso que a gente vê agora”, destacou Couto, que considera a atitude da presidente acertada em meio às condições em que ela se encontra, em meio a uma crise de imagem e política.

O cientista político Humberto Dantas também acha que Dilma acertou em dar ao PMDB participação no núcleo duro do governo e colocar a articulação nas mãos de Temer. Para ele, a presidente cometeu uma série de erros principalmente no início do segundo mandato, equívocos que “certamente” provocariam os problemas políticos pelos quais passa hoje a presidente.

“Onde ela leu que isso ia dar certo? Eu juro que eu queria conversar com a pessoa que disse pra ela assim: tranquilo, relaxa que vai funcionar”, questionou Dantas, professor do Instituto Superior de Pesquisa e Ensino (Insper) e da Fundação Escola de Política e Sociologia de São Paulo (FESP-SP).

Na sequência de erros apontada por Dantas está a formação do núcleo duro do governo somente com ministro petistas, o fato do PT não abrir mão de disputar a presidência da Câmara e lançar candidato contra o aliado, além do estimulo à ideia de criação de partidos que poderiam servir de alternativa ao PMDB dentro da coalizão. 

Em dezembro do ano passado, o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, teria tratado sobre a recriação do antigo PL com o hoje ministro das Cidades, Gilberto Kassab. Além disso, Mercadante também tratou com o ex-ministro da Educação Cid Gomes, sobre a ideia de articular uma frente de partidos de apoio à presidente. Esta ideia foi apresentada pelo próprio Cid como uma alternativa ao Planalto com objetivo de sair da condição de refém do PMDB.

“Estes três movimentos se equivalem, em termos de impacto, a colocar um elefante andando em cima de uma palafita”, comparou. “Será que o PT achou que ninguém fosse ler isso?”, questionou.

Eficácia

O problema é que Dilma, com sua atitude, muito provavelmente não conseguirá apaziguar uma banda do PMDB e de outros partidos formada por deputados seguidores do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Entre peemedebistas, a avaliação é de que Cunha é o único político do partido a apresentar um projeto claro, o de se cacifar para disputar a sucessão de Dilma em 2018.

Alguns peemedebistas apontam que Cunha tem consciência de que sua imagem começa a se consolidar como a “novidade política dos últimos anos”. Os peemedebistas, em reservado, indicam também que o presidente da Câmara não abrirá mão deste conceito, se apaziguando em relação ao Planalto, mesmo que isso crie situações embaraçosas para o vice-presidente Michel Temer.

Além disso, Cunha e o PMDB são considerados os únicos capazes de formar maioria na Câmara para a aprovação de qualquer matéria. “O PMDB é um partido que consegue congregar no seu entorno uma maioria no Congresso. O PT não é capaz de fazer isso. Daí esta cessão de poder”,  aponta Couto.

“Existem aspectos ligados às atitudes do PMDB hoje que a gente não pode ignorar. Estamos em um momento de crise, um momento ruim para o país, e o PMDB quer se descolar. É claro que tem alguém lá dentro que quer isso e já esteja dizendo: vamos nos descolar, até porque é um partido gigante. Tem gente dizendo no PMDB: sou eu”, exemplificou Dantas. “Os sinais já estão sendo dados de que o PMDB deverá ter candidato em 2018”, considerou Dantas.
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